Preta, você é bonita sim!
35ª Noite da Beleza Negra - Ilê Ayê. Foto: Sidney Rocharte (08/02/2014)
“Menina, alisa o cabelo!”. “Mas você vai sair
com essa roupa assim colorida?”. “Vixe, com esse turbante ta parecendo
Mãe-de-Santo...”. “Você não usa maquiagem, né? Não aparece na sua cor mesmo.”
Durante muito tempo era feio ser negra... nariz largo, cabelo duro...o bacana
era parecer branca, tentar ser branca a qualquer custo. Mulheres negras já
usaram das técnicas mais absurdas para alisar as madeixas e usar os penteados
dos cabelos lisos. O uso de pós e cremes para clarear a pele e até usar
pregadores de roupa para prender o nariz na tentativa de afiná-lo, também eram
recursos utilizados na tentativa de se adequar aos padrões de beleza branca
estabelecidos. Somente a partir dos anos 60 os movimentos negros passaram a
lutar pelo fortalecimento da cultura e também pelo reconhecimento da beleza negra,
encorajando negros e negras a assumirem suas origens, a usar seus cabelos naturais
e à mostra, bem como roupas com inspiração nos modelos e estampas africanas. Nos anos 80, em Salvador, até virou moda ser
preto. A cantora Daniela Mercury disse ser “a neguinha mais branquinha da Bahia”
e o cantor e compositor Gerônimo fez com que uma multidão gritasse convicta “Eu
Sou Negão” pelas ruas e avenidas da cidade. Então podemos dizer que “pronto,
não há mais preconceito, cada um pode ser e parecer com o que quiser” e todos
serão tratados igualitariamente, certo? Não, infelizmente não. A indústria
cosmética ainda é majoritariamente voltada para o público não negro. É curioso
ver nas prateleiras das perfumarias, farmácias e supermercados que apenas um cantinho
é destinado aos produtos ‘étnicos’, como se se tratassem de algo de uso
restrito a uma pequena e exótica minoria da população brasileira. Sempre surge
no mercado novidades em chapinhas e técnicas de alisamento capilar. Pode parecer bobagem, futilidade falar em
produtos de beleza diante de tantas outras dificuldades que a população negra
ainda tem que enfrentar nos dias de hoje, no entanto, a falta de interesse da
indústria em investir em produtos direcionados ao público negro mostra que
ainda não se dá a devida atenção a nós, apesar de sermos maioria populacional (segundo o Censo do IBGE de 2010 a
população que se declara preta e parda corresponde a 50,7% dos brasileiros). Como se a nossa aparência e bem estar fossem
menos importantes do que a aparência e bem estar de brancos, como se não
merecêssemos ser e estar bonitas e bem cuidadas. Ou talvez seja uma forma sutil
de continuar dizendo: “você é feia e não merece produtos feitos para você”.

Nenhum comentário:
Postar um comentário